Com uma nova grande crise (1929), e uma nova grande guerra, e uma nova prosperidade pós guerra o mundo se vê mergulhado em uma abundancia econômica de saltar os

olhos: quem não tinha liquidificador passa a ter, quem nunca teve máquina de escrever agora aprende a datilografar, quem tinha poucas opções de roupa agora tem Chanel. Na cultura a imagem da prosperidade, e do poder alcançado pelos Estados Unidos na Grande Guerra, também chega aos lares de todo mundo. Após anos mergulhado em uma política interna afastado dos problemas mundiais, num contexto onde a Alemanha gozava da confortável posição de hegemonia mundial, o Tio Sam se delicia em expandir o “american way of life” para todos os países do mundo. Afinal, ensinar o mundo a viver também faz parte do Destino Manifesto dos escolhidos, porque não?! Após a criação do Super Homem e do Capitão América, cuja a função era salvar a humanidade dos grandes inimigos na Segunda Grande Guerra, porque não colocar em prática a salvação, até então prometida só em quadrinhos para além dos tempos de guerra?Nessa efervescência dos emergentes temos Elvis Presley e o cinema musical de Hollywood que ensina os jovens a viver. Aqui no Brasil não ficamos indiferentes, tivemos a Jovem Guarda e oferecemos um ode ao “iê iê iê”.
Quando tudo parec

ia tranqüilo, numa maré de prosperidade e felicidade que, praticamente, se comprava enlatada nas prateleiras de qualquer mercado, o mundo se vê no meio do fogo cruzado de uma guerra fria. Seria dois mundos brigando para saber qual deles dominaria a terra inteira, ou seria o Tio Sam que não queria no mesmo planeta quem fosse mais poderoso que ele? Fato é que qualquer um que ousasse contrariar o grande Capitão América, era imediatamente salvo pelo Super Homem que tratava, de maneira muito eficiente, de promover “redemocratização” às nações latino-americanas para evitar o “mostro comunista”. Toda a América do Sul agora está mergulhada do plano de salvação dos grandes heróis mundiais. Ou seria plano Condor? A Pop Art, que criava suas raízes lá nos 50, chega com força total, e uma boa pitada de dadaísmo, dando um novo gás a cultura mundial. O Maio francês de 68 explode seu caldeirão europeu de idéias, protestos e cultura. No Brasil, sai de cena a Jovem Guarda, entra o tropicalismo dialogando com a Pop Art com maestria tanta que nem os de esquerda, nem os de direita os entendiam e, para ambos, eram os tropicalistas os traidores do Brasil. Mas não eram eles que retomaram um novo modernismo? A música de protesto não se atreveu a tais subjetividades, sua subjetividade está no campo das entrelinhas de cada letra. Era então, mais uma vez, uma arte de suma importância e função social.

Os planos de “salvação” já não precisam mais continuar, as nações já estavam salvas. Reformulando: as ditaduras impostas pelo autoritarismo do imperialismo americano caíram, o estrago já estava feito. A esquerda já estava fragmentada o suficiente, a sociedade já estava desorientada o suficiente, a direita já estava estabelecida sem abalos configurando a conjuntura perfeita para deixar que os países se resolvessem sozinhos, afinal não iriam conseguir mesmo.
É na década de 80 que os movimentos sociais tentam se reorganizar vendo esperança em um jovem metalúrgico do ABC na clara boa intenção de uma transformação social que, finalmente, viria do povo e pelo povo. Vários tomam as rédeas da fundação do que vira ser o Partido dos Trabalhadores. Nesta época importantes intelectuais se uniram aos trabalhadores para fundar o PT. Também outros intelectuais se faziam presentes neste momento histórico sejam como fundarores, participantes ou observadores, como por exemplo o jovem professor intelectual da Universidade de Paris que anos atrás estava metido na frança de 68: Fernando Henrique Cardoso. É evidente que as intenções originais, ou o que se entendia ser as intenções fundamentais, não perdurou.
A conjuntura que abarca

essa óbvia confusão de todos os aspectos se configurou com a “quebra das ideologias”, queda do muro de Berlim e com o suposto “fim da história” não havia mais nada à que se lutar. As questões sócio-políticas e econômicas transbordam pela cultura novamente. Não havia líderes a se seguir e nenhum motivo pelo qual dar a vida em uma luta justa, restava seguir os modismos que nasciam a cada momento e transformar os artistas da música em ícones que ocupavam o lugar dos líderes em falta. Eram ídolos que agora guiam uma sociedade que, definitivamente, não sabe pra onde ir. É neste contexto que nomes como Cyndi Lauper, Madonna e Michael Jackson são coroados como reis eternos e inquestionáveis. Justo, afinal eram os únicos ali que nos ditariam o que fazer. Reformulando: Compreensível, já que ninguém sabia para onde correr.
Um agradava por sua voz aguda e seus cabelos

extravagantes. Outro agradava por desagradar ao evidenciar questionamentos sobre sexualidade, religião e homossexualidade com a ajuda providencial de seu talento para marketing e sua técnica para dança. Um terceiro agradaria por ter reformado a indústria dos clipes musicais por meio de um talento nada acadêmico e que superava a questão da técnica e, proposto um conceito novo de entretenimento onde a megalomania e ideologia do poderoso Tio Sam dialogavam harmonicamente de maneira tão eficiente que, até hoje, quase ninguém percebeu.
Nesse contexto, nada como os novos brinquedos coloridos e vídeos games que anunciavam a chegada da era tecnológica para complementar todo excesso de informação. Isto posto, a década perdida promove, logicamente, a geração que, igualmente perdida, construiria as próximas décadas.

O final da década perdida nos trás jovens que questionam, culturalmente, se as próximas décadas realmente devem seguir com o modelo proposto em 80. No Brasil, Legião Urbana, de Renato Russo e Barão Vermelho, de Cazuza e Frejat, bebem na fonte da Tropicália e da Música de protesto para perguntar “Que país e esse?” ou gritar para que o “Brasil mostre a sua cara!”. Não são ouvidos de fato, apenas admirados porque sabe-se que dizem algo de relevante que remetia àquela realidade e ao que estava por vir. Mas a “salvação”, ou o estrago, já estava feito desde antes em 70, não havia mais cognição social suficiente para que o recado fosse, de fato, entendido.

Deste modo, a década de 90 segue os padrões da década de 80 e com seu rei e sua rainha eleitos desde então que, através da cultura de massas, ditavam as regras sociais para toda a humanidade: Madonna e Michael Jackson estabelecem, de uma vez por todas, o “american way of life” iniciado nos prósperos anos 50. Os jovens artistas que surgiriam após eles só faziam seguir as regras, nada era criado. Imitar as majestade era a tendência cultural no campo da música pop a partir deste ponto.
No Brasil, nomes como Cássia Eller, Zélia Ducan, Capital Inicial, de Dinho Ouro Preto, Skank , Pato Fu, entre outros, propunham uma alternativa na tentativa de dar uma injeção de intelectualidade renovadora na MPB, mais ou menos questionadora, direcionados, sobretudo, aos jovens do país. Nada que se compare às músicas de protesto ou a tropicália dos 60/70, mas ao menos uma proposta outra ao modo de viver americano vendido, agora, nas grandes redes de hiper mercados do fim do breve século XX.

É no século XXI, em plena pós modernidade, em que ídolos de antes já não mais existem ou estão “obsoletos” demais, que os anos 2000 se vê abertamente bombardeado por um novo ídolo a cada um montante de meses que, pelo menos , chegue perto do talento dos anteriores. Regados a Britney Spears, Kelly´s Keys, e funk´s cariocas, o início dos anos 2000 diz logo a que veio deixando apenas para um seleto público a arte de Jorge Vercillo, Ana Carolina, Maria Rita (a filha de Elis Regina de 70, a “pimentinha” e seu Dois na Bossa) e Jair de Oliveira, o Jairzinho de 80 (Filho de Jair Rodrigues, aquele dos 70, dos festivais e também de Dois na Bossa); entre outros.
Na primeira década do novo século segue a fortificação do modo americano de viver sem maiores questionamentos. Ao se questionar pode se levantar dúvidas , imediatamente, a respeito do gozo de suas perfeitas faculdades mentais.
A MPB prossegue caminhando na luta constante para se manter popular. Não consegue. A geração da década perdida já não entende e não se reconhece mais na MPB. A Música Popular Brasileira não é mais popular, é apreciada pela elite intelectual e só. Perdura o modelo de ídolos efêmeros que agora surgem como bananas nos trópicos a cada semana, ou dias. Na evidente incompetência em equivaler-se aos grandes feitos dos ídolos de outrora, os ídolos de agora se limitam a copiar, copiar e copiar. O original fica por conta do que é copiado da produção cultural anterior à 90.

Nessa lógica, se Christina Aguilera copia o jazz de 40 com “novos ares” do que copia da música pop de 90, então a música que Aguilera “cria” é de bom gosto e, apesar de pop, merece ser apreciada. Se Amy Winehouse , querendo reviver Billie Holiday, tenta ser uma versão feminina de Elvis Presley _ até nos vícios e, sobretudo, no que tange ao fato de um branco cantar as músicas dos negros e passar a mensagem de uma outra etnia, que não a sua, na ilusão forjada de que as cores se fundem _ Winehouse agora “cria” algo tão esplêndido para a juventude que a impressão é de que ninguém ouviu essa música antes. Se Beyoncé surge numa cópia reformulada das “The Supremes”, repaginada com uma cópia do pop de 90, com uma pitadinha “original” da cópia do interesse pelo público gay da Madonna de 80, com a cópia (mal feita) da mulher do movimento feminista de 60 (pois não se trata de feminismo aquilo que constrói seus alicerces na exploração da própria sensualidade a fim de satisfazer os desejos masculinos e de mercado) e a cópia da mulher sexualmente atraente dos filmes americanos de 30, então esta nova figurinha no mercado fonográfico merece ser ouvida pois tudo o que Beyoncé copia “criando” nos faz ficar em dúvida se essa mistura trata-se de algo que realmente vimos antes.

Os produtores musicais que, por ventura, são os mesmos para todos os ídolos que surgem a cada 24 horas, vêm os resultados desse caldeirão de “criatividade” diretamente nos gráficos de lucros das suas empresas fonográficas. O lucro possibilita a vantagem para que a Industria musical e, da produção cultural de massas, promova novas pesquisas de mercado do que seria de impacto no aspecto consumista no seio da geração da década perdida e da geração pós-moderna na próxima semana. Ambas as gerações se sentem satisfeitas por pensar que mais um novo ídolo apareceu para guiá-las já que, o ídolo do mês passado já se encontra por demais obsoleto para as necessidades atuais dessa semana. É nesse contexto que surgem fenômenos “culturais” como Lady Gaga.
No fim da primeira década do início do século XXI, os efeitos das crises econômicas que até então eram cíclicas e concomitantes, agora eclodem em uma única grande crise mundial _ disfarçadas de crises pontuais de regionalidade pela grande mídia estabelecida, há muito, como quarto poder_ de proporções superiores à de 1929, a sociedade se encontra completamente fragmentada, efêmera, ansiosa, rápida, apressada, vulnerável psicologicamente, altamente tecnológica e com a maioria das informações no aspecto do conhecimento à disposição. O conhecimento é poder. Paradoxalmente a sociedade nunca experimentou, tão profundamente, o deleite da alienação e da possibilidade de ser parva acreditando, fielmente, se tratar de uma organização humana intelectualmente evoluída. Reformulando: e (in) voluí

da. O poder é de (quase) ninguém.
Com tantas informações, com tanta rapidez, com tanta banalidade para com as questões essenciais no que tange à existência, não é preciso grande esforço para pensar: o padrão do pensamento já está (im) posto. A maioria pensa pelo padrão do pensamento estabelecido logo, não é de se surpreender, a maioria
não pensa. Não se trata de uma ofensa gratuita à grande parte da humanidade, tampouco algo que inferioriza qualquer um que goze, ou não, dessa (des) vantagem. Trata-se de uma constatação factual.
No campo da cultura de massas, especificamente no que diz respeito à música, não é preciso mais uma arte de grandes questionamentos. É preciso algo que fantasie a sensação de questionamento social e ideológico sem de fato fazê-lo. Ato falho: afinal as ideologias foram quebradas em 80. Ou não?!

Respondendo a uma necessidade de mercado, surge Lady Gaga que obriga-nos a perceber contemporâneos ao caótico numa sociedade onde ela existe. Isso, por si só, já explicaria todo o resto, mas opto por ser mais didática: É Lady Gaga o perfeito retrato da pós modernidade.
O que Gaga faz parece ser a coisa mais original de “todos os tempos da ultima semana” (como já salientava Titãs nos, não muito distantes, anos 90) e as “referências” que usa parecem remeter à “retroalimentação” tropicalista a que Gil se referiu em 70 a respeito de uma área cultural dialogar com outra _ bem como as áreas de aspectos culturais dialogarem com áreas outras _ , e com suas respectivas sub-áreas, resultando em um processo criativo que responderia às necessidades de identidade cultural que começaram a ser questionadas desde antes da República.
Nada disso.
Não se trata de “referências”, nem de conceito

s elaborados e sofisticados como “retroalimentação” e não se trata de criação: é a cópia da estética imagética de 50, com a cópia de Madonna (que por sua vez, resvalava em seus feitos a estética
pin up de 30), com a cópia de Michael Jackson (que possuía claras referências a James Brown), com a cópia dos artistas de 90 (que eram a cópia do rei e da rainha supracitados), com a cópia dos que copiavam os anteriores mais a cópia da cópia dos que são atuais, que fazem cópia da cópia dos que vieram antes deles.

E qual a fantástica originalidade de Lady Gaga? Elementar: Gaga não se limita a ser a cópia, tão somente, do que é anterior a ela até a década perdida. Se na década perdida entendia-se que se estabelecia o excesso de informação por vias tecnológicas e artísticas, é porque Lady Gaga ainda não estava em cena. Lady Gaga ultrapassa a reles cópia até esta década, vai além: promove a cópia do que já foi copiado de 30, de 40, de 50, de 60, de 70, de 90 e ainda possui a proeza de copiar o que é copiado por outros que são contemporâneos a ela no fim da primeira década do presente novo século. Como se não fosse o suficiente, os que vieram poucos anos antes de Gaga, os contemporâneos a ela e os ídolos juvenis que surgem concomitantes a ela, copiam a própria Gaga. Aquela que é a cópia vira o “criador” e, então, é copiado por quem, na maioria das vezes, ela própria copia. Segue-se o modelo/fórmula estabelecido em 90 no que diz respeito da imitação eterna dos ícones pop’s vindos de 80.

O retrato da pós modernidade interpretado por Gaga está no fato de que se trata de muita informação, imagens rápidas, músicas efêmeras, questionamentos copiados de antes com nova roupagem cujo o figurino é outra cópia baseado em todos os recursos tecnológicos para que o show megalomaníaco de entretenimento, iniciado por Jackson, prossiga dialogando harmonicamente com a ideologia do Tio Sam com sua "nova" roupagem: um jovem negro de idéias novas das cópias do big stick da primeira década do século XX, de Roosevelt e da Doutrina Monroe, com a cópia da lógica do destino manifesto do século XIX, e da cópia com uma nova cara da polícia do seu próprio antecessor, numa embalagem super "original" da cópia de um discurso de
nova era já feito desde os 1800.

Muitas imagens, muitas referências, muitas cópias das cópias das cópias. Tudo demasiadamente mastigado para seguir o padrão de pensamento (im) posto, tudo demasiadamente rápido uma vez que se mais longo fosse, obrigaria o exercício do pensar que, agora, já é desconhecido. Eis a fórmula da época atual.
Grandes feitos alardeadores que, de novo, não anunciam nada. “Um grande museu de grandes novidades”, como dizia o Cazuza da década perdida. Uma Caixa de Pandora e uma Torre de Babel pós-moderna personificada, na cultura de massa, por ícones como Gaga e, não obstante, respaldado por um público que, na verdade, pouco escolhe a despeito da crença que alimenta de que não é liderado _ mas se torna ovelha sem nenhum sinal da liberdade de salvação tão prometida pelo Super Homem de outras épocas. Dialeticamente é um público que, acreditando ter um líder _ que procurava desde dos 80 _, se torna profundamente perdido.
Lady Gaga e certos aspectos da pós modernidade são muitas coisas em uma só. Na exata proporção em que as crises do breve século XX e do recém nascido século XXI se dão quando a produção é muita, transformando tudo produzido até então em algo sem valor algum no momento da crise; Lady Gaga, retratando a pós modernidade e carregando as cópias de tudo, passa ser a personificação da confusão social de identidade e ausência da individualidade (que dá lugar ao individualismo a serviço do capital) sob a fórmula enlatada da cultura de massa. Não há grandes criações, não se lê mais grandes livros, não se tem mais grandes líderes de vanguarda, se tem muito pelo mercado de consumo e não se tem a si próprio, o conhecimento está posto a mesa e, entretanto, não se sabe quase nada. Não é possível identificar no ator histórico da grande massa da atualidade, tão pouco, a vantagem de pensar. O "pensar" é, definitivamente, o “american way of life”. É o cérebro social pós-moderno um caos no vácuo do século XXI, um perfeito nada: Lady Gaga.
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